Apesar de pequenas reduções nas perspectivas de crédito e emprego, o nível de atividade pode ser comparado ao período pré-crise
Márcia De Chiara - O Estado de S.Paulo
A indústria e o comércio iniciam o segundo semestre com ritmo forte de atividade, apesar de reduções marginais do segundo para o terceiro trimestre, apontam duas pesquisas de opinião feitas com empresários.
O temor do superaquecimento do primeiro trimestre, quando o PIB cresceu 2,7% ante o último de 2009 e 9% na comparação com igual período do ano anterior, ficou para trás, dizem os economistas. Mas eles ponderam que a atividade econômica segue em nível elevado, comparável aos bons momentos pré-crise.
A produção prevista da indústria para três meses subiu em junho pelo segundo mês consecutivo, aponta a Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV). No mês passado, 44,4% das cerca de mil indústrias consultadas apostavam numa produção maior para o período de junho a agosto.
Em maio, essa participação era de 40,5% e, em abril, de 38,4%, quando houve uma forte retração em relação ao mês anterior (45,1%). Os resultados são comparáveis porque estão livres das oscilações sazonais, que normalmente ocorrem de um mês para outro. "Mantém-se a expectativa de desaceleração do ritmo de atividade, mas a evolução do indicador sinaliza que a magnitude esperada para a desaceleração já foi mais intensa", diz o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV, Aloisio Campelo.
Crédito e imposto. Com a volta do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) integral para carros e eletrodomésticos e a elevação da taxa de juros, fabricantes de bens duráveis pisaram no freio em abril. Mas a evolução positiva do crédito de longo prazo e da renda, nos últimos meses, deve contrabalançar o efeito negativo da alta dos juros e do IPI no consumo.
Esse cenário já aparece nas encomendas. Mal começou julho e a Cromex, que fabrica concentrados de cor e aditivos para plásticos usados pelas indústrias de eletrodomésticos, automobilística, entre outros setores, tem 30% do faturamento do mês na sua carteira de pedidos.
Cesar Ortega, diretor comercial da empresa, conta que encerrou o primeiro trimestre com crescimento da produção de 32% em relação ao ano anterior. Essa taxa já foi menor no segundo trimestre (26%). Para o terceiro trimestre, ele acredita que, apesar da base de comparação mais forte, a velocidade do crescimento deve se acelerar por causa da sazonalidade mais forte puxada por datas importantes, como o Dia das Crianças e o Natal.
Com duas unidades de produção, Ortega decidiu iniciar neste mês um terceiro turno na fábrica da Bahia. Com a instalação de uma nova máquina, ele vai ampliar 1.800 toneladas mensais a sua capacidade mensal.
O Grupo Orsa, um dos maiores do segmento de embalagens de papelão ondulado, que é um bom termômetro do ritmo de atividade, também começou julho com crescimento de encomendas. Segundo o presidente do Grupo, Sergio Amoroso, o aumento nos pedidos deste mês é da ordem de 4% sobre junho.
Com 100% da produção voltada para o mercado doméstico, direcionado para embalagens de eletrodomésticos da linha branca, alimentos, e produtos de higiene e limpeza, a empresa trabalha hoje à plena carga. Amoroso conta que encerou o primeiro semestre com crescimento de 20% na comparação com igual período de 2009. Para este semestre, como a base de comparação é mais forte, ele prevê crescimento entre 3% e 4%. "Há uma acomodação do ritmo de atividade."
Mais encomendas. A Vitopel, fabricante de filmes flexíveis para embalagens, registra aceleração nas encomendas para o segundo semestre, entre 5% a 8%, na comparação com o primeiro semestre. José Ricardo Roriz Coelho, presidente da empresa, conta que começou julho com 20 dias de pedidos em carteira, o que é muito positivo.
"O segundo semestre será bem melhor que o primeiro. O que preocupa é a exportação", diz Roriz. Os filmes flexíveis são usados principalmente nas embalagens de alimentos e bebidas. Com a Copa do Mundo, as vendas de refrigerantes e salgadinhos crescem e há perspectiva de forte reposição dos produtos.
"Não vejo desaceleração", afirma o presidente em exercício da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade. Ele observa que a perspectiva é de que a produção industrial feche o ano com aumento de 8%. No primeiro semestre, o crescimento deve ter oscilado entre 8,5% e 9%, calcula.
Ajuste. Pesquisa Empresarial Serasa Experian com cerca de mil executivos da indústria, do comércio e do setor de serviços revela que há pequenas reduções nas expectativas em relação ao crédito, emprego e investimentos a cada trimestre, mas o cenário ainda é muito favorável.
Em dezembro, 6% dos empresários achavam que as condições de crédito no primeiro trimestre de 2010 seriam piores em relação ao anterior. No segundo trimestre, essa fatia subiu para 15% e no terceiro trimestre para 19%. Em contrapartida, a fatia dos que acham que as condições de crédito vão se manter ou melhorar em relação ao trimestre anterior é ainda muito elevada. Essa parcela era de 85% no primeiro trimestre, caiu para 85% no segundo trimestre e está em 81%.
Com relação ao emprego, que é um indicador de como vai se comportar a atividade, os resultados são mais robustos. Em dezembro de 2009, 4% das empresas informaram que pretendiam demitir no primeiro trimestre. Esse resultado subiu para 6% no trimestre seguinte e se manteve nesse patamar neste trimestre. Já a fatia de empresas que pretendem contratar ou manter os quadros estava em 96% no primeiro trimestre e desde o segundo trimestre se mantém em 94%. |