Jogo com a Europa agora é no comércio

Da Redação - Conexão Diplomática

Eliminado da Copa da África no duelo entre Mercosul e União Europeia, o Brasil pode agora concentrar-se em disputas ainda mais difíceis com o bloco do Velho Continente — as pendências comerciais que emperraram as negociações para um acordo de associação entre as duas regiões. Suspensas desde 2004, elas foram reabertas formalmente em maio passado, durante encontro de cúpula birregional em Madri. O reatamento foi uma tabelinha entre os governos da Espanha, que exerceu no primeiro semestre a presidência rotativa da UE, e do Brasil, que presidirá o Mercosul até o fim do ano — com a perpectiva de concluir o processo com êxito a tempo de ser fechado ainda por Lula, na despedida do segundo mandato. Mesmo porque em 2011 o Planalto ainda é uma incógnita.

Semanas antes do encontro na capital espanhola, o embaixador do país no Brasil deixou claro que esse prazo, embora não pudesse ser tomado como um limite prefixado, estava sendo encarado por ambas as partes como uma meta referencial. Nas palavras do diplomata, “não faria sentido” assumir o desgaste de reabrir as conversações sem a “determinação” de levá-las ao fim, com objetividade. Afinal, o que está em jogo é a criação do maior mercado do mundo, com 800 milhões de consumidores potenciais. E é no charme diplomático do presidente brasileiro, assim como em sua notórias afinidades com o colega espanhol, José Luis Zapatero, que os entusiastas do acordo apostam as fichas. A primeira rodada de conversações foi concluída ontem, em Buenos Aires, com a troca de propostas sobre as pendências na área comercial.

Falta combinar
Resta, porém, o obstáculo nada fácil de dobrar a resistência do lobby agrícola — especialmente forte na França, um dos pesos pesados da UE — à abertura do setor, tanto mais em tempos de crise. O mau desempenho da economia europeia, na ótica dos otimistas, joga a favor do comércio como tábua de salvação. Mas não é demais lembrar que essa mesma conjuntura está deixando fora de combate o governo alemão, contrapeso natural ao protecionismo francês. Do lado de cá, o mesmo vale para a Argentina, no que diz respeito a produtos industrializados — até os brasileiros estão sofrendo restrições. Em resumo, até aqui o jogo continua truncado.

Vai longe
A semana que passou trouxe sinais de que, como haviam observado diplomatas europeus nas últimas semanas, a votação folgada no Conselho de Segurança a favor de novas sanções ao Irã não significaria obrigatoriamente um ponto final para a iniciativa de mediação turco-brasileira. Nem traduzia um real consenso entre as grandes potências sobre o caminho a seguir no impasse nuclear. Não por acaso, foi a Rússia quem anunciou a proposta de uma reunião técnica entre iranianos e representantes da AIEA para discutir os termos do acordo assinado em maio, em Teerã, pelos presidentes Lula e Mahmud Ahmadinejad, além do premiê turco, Tayyp Erdogan.

O Brasil ficou em companhia apenas da Turquia na decisão do conselho, mas, como observou para a coluna uma fonte europeia, a partir de agora será difícil explorar qualquer caminho de diálogo sem a participação dos dois países.

Candidatura
O Brasil se apresenta na semana que vem para presidir a Comissão de Desenvolvimento Social da Organização dos Estados Americanos (OEA), com os números de redução da pobreza e combate à fome como carta de apresentação. A candidatura será apresentada pela ministra do Desenvolvimento Social, Márcia Lopes, que representa o país em Cali, na Colômbia, na reunião interamericana de ministros da área. Será ela quem assumirá o cargo, caso a escolha recaia mesmo sobre o Brasil, que exibe como credenciais os 24 milhões de cidadãos que superaram a linha de pobreza desde 2003, além dos 12,5 milhões de famílias beneficiadas atualmente pelo Bolsa Família, embaixador por excelência da política social do governo Lula.

Correio Braziliense