Crescimento do país em ritmo chinês tende a perder força

Celso de Campos Toledo Neto

Em abril, a produção industrial acumulou crescimento anual de 17,4%. Apesar disso, houve retração de 0,7% em relação a março. Esse tropeço indica um movimento mais relevante de esfriamento da economia no futuro?
A resposta não é óbvia. Parte das oscilações mensais de indicadores econômicos tem origem em fatores pontuais. Obtém-se um retrato mais fiel do ritmo de andamento da economia a partir de médias que suavizam as flutuações de curto prazo -por exemplo, a média móvel de três meses.
A partir dessa ótica, o pulso continuou bastante forte em abril: crescimento mensal anualizado de 18% ao ano, espalhado em mais de 70% dos segmentos. Para uma comparação, a produção industrial chinesa tem crescido a esse ritmo, despertando desconforto nas autoridades.
Os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não permitem, portanto, descartar a tese de que a escorregada de abril tenha sido apenas um movimento breve de acomodação, frequente em períodos de forte crescimento.
Na verdade, algumas sondagens do mês de maio revelam que o empresariado segue confiante. Isso se reflete na elevação robusta da produção de bens de capital (associada às decisões de investimento), que aumentou quase 8% em abril.
Nesse contexto, os analistas têm elevado as projeções de crescimento, havendo apostas de que o PIB (Produto Interno Bruto) aumentará até 8% em 2010.
A contrapartida é o receio de que um pequeno deslize do governo na aplicação de políticas de contenção poderá fazer com que a inflação se descole significativamente da meta em 2011. Daí a pressão sobre o Banco Central.
A meu ver, apesar dos números recentes ainda fortes e do crescente otimismo das projeções para a atividade econômica, é bastante provável a ocorrência de uma desaceleração nos próximos trimestres.
A razão é simples: ninguém compra duas geladeiras, e a produção desses bens e afins tem conexões importantes com o restante da economia. O licenciamento de automóveis caiu mais de 8% em maio.

CONSUMO ANTECIPADO
Em que pese a dificuldade técnica de isolar o efeito das políticas de estímulo adotadas após o estouro da crise -cujo efeito positivo, diga-se, foi subestimado pela maioria dos economistas em 2009-, estou convencido de que houve um movimento expressivo de antecipação de consumo de bens duráveis que roubará parte do crescimento no futuro.
O final dos estímulos e as tendências de elevação da taxa de juros e de amortecimento do crescimento mundial são fatores que precipitarão a perda de fôlego desses segmentos, com o efeito de diminuir o dinamismo dos demais setores da economia.

CELSO DE CAMPOS TOLEDO NETO, economista, é diretor da LCA Consultores.

Folha de S. Paulo