Karina Nappi
Empresários do setor exportador afirmam que a crise na União Europeia não deverá refletir no Brasil no curto prazo, ao contrário da projeção do secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento (Mdic), Welber Barral.
De acordo com o secretário, o impacto negativo vai ocorrer num prazo de 30 a 60 dias. Ele evitou especular sobre o volume de queda nas vendas externas do país, Barral defendeu ainda intervenções do Banco Central (BC) no mercado de moedas para evitar oscilações nas cotações, o que afetaria ainda mais o desempenho comercial.
O efeito da crise tem um impacto muito grande, principalmente na confiabilidade de negócios e de garantias. Evidentemente, ela ainda está centrada em alguns países europeus. Não houve alastramento pelos principais importadores do Brasil na região, que são Alemanha e Holanda. Esperamos que haja um efeito em 30 a 60 dias, mas que estará relacionado com a expectativa e com a credibilidade dos mercados, disse Barral.
As consequências da crise, principalmente na Grécia, Portugal e Espanha, não devem atingir o País nos 60 dias, mas certamente em 2011 devemos sentir um desaquecimento forte da economia mundial e mais turbulências em torno do sistema financeiro, que afetarão o comércio internacional, afirmou o presidente da Associação das Empresas de Comércio internacional (Aeci), Paulo Camurugi.
Para Astério Bieger, técnico e estilista da AJB Assessoria Técnica com foco no setor calçadista, independente do prazo dos reflexos, o setor privado está tomando medidas para se prevenir. Nós procuraremos mercados alternativos, outros nichos de mercado, com mais qualidade e mais elaboração e novos mercados.
Os empresários vêm buscando junto ao governo medidas eficazes, como a redução dos juros, a desvalorização do real, a desoneração da carga tributária na exportação, pois exportamos muito imposto, e estão redobrando a atenção em relação ao crédito dos importadores para evitar prováveis inadimplências que possam surgir com esta crise, relatou o presidente da Aeci.
Questionado sobre o cenário atual com a crise, Camurugi disse que não está muito otimista. Sabemos que tudo o que está acontecendo é só a ponta do iceberg e o Brasil não está e nem estará imune aos efeitos desta crise.
Para ambos os entrevistados, o nível ideal para a cotação do dólar seria acima dos R$ 2,00. Eu acho que se ficar próximo de 2 seria razoável, nos ajudaria bastante, se pudesse permanecer na casa dos 2 seria interessante para o setor e para elevar as exportações do Brasil, disse Bieger.
O sonho de todos os exportadores, é de R$ 2,50, mas se chegarmos a R$ 2,30 estaria de bom tamanho, concluiu Camurugi.
Apesar das informações de Barral seguirem para o caminho da redução da meta de exportações de US$ 168 bilhões neste ano, os empresários do setor acreditam que se as medidas divulgadas no início do mês e outras que estão por vir derem resultados, não haverá necessidade de revisão da meta.
Penso que não será necessária a redução da meta de exportações, pois o que o governo deve fazer é criar mais incentivos e colocar em prática o que já foi conquistado, frisou Camurugi.
Relações bilaterais
Segundo os dados do Mdic as exportações do Brasil para a União Europeia no primeiro quadrimestre de 2010 superaram em 20% o mesmo período de 2009. Nos quatro primeiros meses do ano passado foram exportados US$ 10,063 bilhões, enquanto que neste ano o valor foi de US$ 12,080 bilhões.
As importações por sua vez, também apresentaram crescimento. O montante importado pelo Brasil em 2010 ultrapassou em 33,9% o total comprado pelo País nos quatro primeiros meses de 2009 (US$ 8,468 bilhões).
O saldo comercial no quadrimestre de 2010 é de US$ 743,8 milhões, favorável para o Brasil, porém 53,4% inferior ao mesmo período de 2009. A corrente comercial, na mesma análise, marcou US$ 23,418 bilhões, uma alta de 26,37% frente aos US$ 18,532 bilhões registrados no ano passado.
A crise na União Europeia vai impactar as exportações brasileiras, reconhecem empresários e o governo federal. Para Welber Barral, do Ministério do Desenvolvimento, o efeito será a curto prazo - entre 30 e 60 dias. Os empresários apostam em um efeito a longo prazo, com redução mais significativa das vendas externas a partir de 2011.
Antes da pior fase da turbulência, o comércio entre Brasil e Europa registrava crescimento acentuado. A corrente comercial somou US$ 23,418 bilhões de janeiro a abril, uma alta de 26,37% frente aos US$ 18,532 bilhões do primeiro quadrimestre de 2009.
As consequências mais graves da crise virão certamente em 2011: devemos sentir um desaquecimento forte da economia mundial e mais turbulências em torno do sistema financeiro que afetarão o comércio internacional, afirmou o presidente da Associação das empresas de comércio internacional (Aeci), Paulo Camurugi.
Mas a crise também pode trazer benefícios para a economia brasileira, principalmente no controle da inflação. Com o agravamento da crise na Europa, as exportações à região tendem a diminuir, o que aumentará a oferta no mercado interno. Com os preços reduzidos, a inflação cai e não há necessidade de elevar a taxa de juros nos níveis previstos, analisa o professor da Brazilian Business School (BBS) Pedro Martins.
Na sexta-feira, depois de seis quedas seguidas, a Bolsa brasileira fechou em alta de 3,55%, aos 60.259 pontos, puxada principalmente pelas ações da Vale.
Apesar do bom desempenho de sexta, analistas afirmam que a crise na Europa provoca uma migração de investimentos, que saem das empresas produtoras de matérias-primas, como Vale e Petrobras, para as companhias do setor de varejo. Prova disso é que o Índice de Consumo da Bolsa, que reúne ações de empresas de varejo, fechou a semana com queda de 2,57%, contra perdas de 4,97% registradas pelo Ibovespa.
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